quarta-feira, 8 de abril de 2026

Dançando no bunker

 Polca no frio do Leste Europeu

No Leste Europeu, enfrentávamos a primavera mais fria dos últimos 40 anos. Já eram quase dez dias rodando pelas estradas e, confesso, a gente precisava de um pouco de diversão.

Saímos à noite. Termômetro marcando menos três graus. O destino era uma casa simpática, acolhedora, dessas que abraçam a gente antes mesmo do primeiro gole de vinho. Ao chegar, comentei com Marina e o Chico, meus companheiros de mesa:

— Hoje vai ser uma grande noite. Essa música e a dança polaca me fazem voltar aos tempos de Miracema, às audições da professora Onidéia… quantas vezes dancei músicas de vários países naqueles shows que ela ensaiava com tanto capricho.

Entre um vinho e outro, assistíamos às apresentações dos bailarinos poloneses, até que veio a surpresa. O guia perguntou quem queria subir ao palco para dançar com eles.

Nem pensei em me manifestar.

Mas o Chico, que já ouvira meus causos de “dançarino”, não perdeu a chance: — Chama o Dutra! Ele tá dizendo que sabe dançar polca!

E fui. Sem medo de ser feliz.

Dancei — segundo a polaca que fez par comigo — maravilhosamente bem. Dei meu show particular, fui aplaudi

do e ainda pediram bis. Recusei, com a elegância de quem sabe a hora de sair por cima. Não ia pagar mico na segunda chance.

Mas aí veio o golpe deles.

Nos bastidores, os dançarinos resolveram me testar de verdade. Me chamaram de volta ao palco e puxaram uma polca mais rápida, mais alegre, daquelas de tirar o fôlego.

Se a intenção era me derrubar, se estreparam.

Mais uma vez surpreendi a todos — inclusive a mim mesmo. Com a mesma parceira, deslizamos pelo palco como dois profissionais. Leve, solto, como se Miracema tivesse atravessado o oceano comigo.

Foi um barato.

E eu nem fazia ideia de que Marina estava ali, registrando tudo em fotos e vídeos. Já o Chico, de pé, aplaudia e ria, confessando que tinha me chamado esperando um vexame — desses que a gente promete e não entrega.

Falava demais de Miracema, dizia ele, dessa tradição de grandes dançarinos…

Pois teve que me engolir.

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